Entenda o que a ciência diz sobre os multiversos de “Doutor Estranho”

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, novo filme da Marvel lançado nesta quinta-feira (5), é um mergulho fantástico na possibilidade, ainda fictícia, de viajar por múltiplas realidades, em algo chamado de multiverso. No longa, uma menina chamada America Chavez tem o poder de abrir portais para outras dimensões — que são versões diferentes da nossa realidade, cada uma com suas particularidades e estranhezas.

Os conceitos de multiverso e realidade paralela são muito utilizados na cultura pop, principalmente na ficção científica e em franquias de super-heróis e histórias em quadrinhos, como as da Marvel e DC Comics. Apesar de exagerarem nos recursos ao criarem enredos fantasiosos, essas produções se baseiam em algumas teorias científicas que dão abertura para diversas interpretações.

A teoria do multiverso — assim como a teoria das cordas, dos buracos de minhoca, entre outras — é um conceito que está na fronteira da física teórica, misturando, por vezes, questões filosóficas com proposições físico-matemáticas. Isso quer dizer que, apesar de não terem evidências para a sua existência, há uma maneira científica de embasar a sua possível veracidade, e que envolve processos matemáticos avançados.

O que é o multiverso?

Ainda não é um consenso para a comunidade científica se o Universo é um sistema fechado ou aberto, ou seja, se ele é infinito ou finito. Ainda assim, graças ao estudo do Big Bang e da radiação cósmica, sabemos que há um Universo observável, e que ele tem um raio de aproximadamente 13,8 bilhões de anos-luz.

Deste modo, mesmo que seja infinito, ele tem um limite, assim como há um número finito de maneiras pelas quais as partículas podem ser organizadas nas quatro dimensões da nossa realidade (três de espaço e uma de tempo). O multiverso seria, portanto, a ideia de que, além do Universo observável, outros Universos também podem existir.

A inflação infinita do Universo pode criar múltiplos Universos circunscritos em bolhas (Foto: Geralt/ Pixabay)

A inflação infinita do Universo pode criar múltiplos Universos circunscritos em bolhas (Foto: Geralt/ Pixabay)

“Entre o número 0 e 1 há infinitos números, só que há um limite: começa no 0 e termina no 1. É um infinito com fronteiras, assim como seria o nosso Universo”, compara o pesquisador Marcelo Lapola, doutorando em Física pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e autor da coluna Quânticas, publicada mensalmente na GALILEU. “A teoria dos multiversos compreende que, para além dessas fronteiras, há a possibilidade de existirem outros Universos, com outras realidades para além da nossa.”

Outra maneira de entender a possibilidade da existência do multiverso é por meio da cosmologia inflacionária, que é a ideia de que o Universo se expandiu de maneira rápida e exponencial momentos após o Big Bang. Apoiado por alguns estudiosos, um dos resultados previstos dessa “inflação” do Universo é que ela pode acontecer infinitamente, criando múltiplos Universos circunscritos em bolhas, como esse sistema hipotético é muitas vezes descrito.

Nem todas essas bolhas teriam as mesmas propriedades que a nossa, podendo haver realidades onde a física se comporta de maneira diferente. Algumas delas, entretanto, poderiam ser semelhantes ao nosso Universo. “Um dos modelos possíveis de multiverso compreende a existência de ‘Universos espelhos’, onde as mesmas constantes físicas que regem as leis naturais do nosso Universo teriam apenas algumas pequenas alterações, gerando uma realidade muito próxima da nossa”, completa Lapola.

É a partir dessa ideia que o novo filme do Doutor Estranho, por exemplo, apresenta versões diferentes dos mesmos personagens e dos mesmos lugares, como se em algum Universo pudesse existir uma versão apenas um pouco diferente de nós mesmos.

Não é atoa que esse conceito está sendo muito explorado ultimamente pelas franquias de ficção científica, já que ele concede uma infinidade de possibilidades para o mesmo enredo. Mesmo que sustentada por proposições matemáticas e expectativas dentro da física, a ideia de multiversos ainda é, e provavelmente sempre será, algo puramente teórico. Até que se prove o contrário.

*Com supervisão e edição de Larissa Lopes.

Fonte Galileu