UTI com moeda de troca!! Vale a pena o futebol salvar contratos ao preço da perda do respeito?

O gol de Gustavo Mosquito, as defesas de Cássio, a pressão do bom time do Mirassol… não será por qualquer destes lances que a visita do Corinthians e do Campeonato Paulista a Volta Redonda, nesta terça-feira, merecerá ser lembrada. Jogos como este, assim como o Palmeiras x São Bento desta quarta-feira, ou até o mais obscuro Jaraguá-GO x Manaus marcado para Nova Iguaçu, devem ser vistos como símbolos da falta de limites: exibem até onde o futebol foi capaz de chegar para manter seus campeonatos em andamento.

Jogadores do Corinthians antes de jogo contra o Mirassol — Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

Jogadores do Corinthians antes de jogo contra o Mirassol — Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

No mesmo dia em que o estado do Rio de Janeiro atingiu o recorde de 528 pessoas na fila por um leito de UTI, dirigentes esportivos iam atrás de qualquer município disposto a abrigar uma partida, fosse de Campeonato Paulista ou Copa do Brasil. Ainda deve estar fresco na memória que, ao longo da última temporada, sob a bênção dos governos, cartolas tinham na ponta da língua o argumento para sustentar os jogos: “Seguimos as orientações das autoridades”. Quando as tais orientações deixaram de satisfazer, primeiro veio a ameaça de judicialização. Em seguida, a falsa declaração de que o jogo acataria a suspensão. Por fim, criou-se o futebol do puxadinho, do jeitinho.

Num país sem governo, há vários setores da economia recorrendo ao lobby ou a artimanhas para funcionar. Mas não é demais esperar do futebol que reconheça seu papel social, as paixões que desperta, seu poder de influenciar. Está claro que o forte simbolismo de fazer a bola parar de rolar, ou o diálogo com a sociedade, não eram prioridade dos dirigentes. Muito menos a disposição de colaborar, de assumir um papel no combate à maior tragédia de saúde da história do país.

A tal ponto que respiradores e monitores de UTI foram transformados em moedas de troca. Num país cujos serviços de saúde se veem estrangulados, com capacidade de resposta no limite, a Federação Paulista de Futebol usou equipamentos médicos que salvam vidas como barganha. Volta Redonda recebeu o Corinthians, receberá o Palmeiras e ganhará dez respiradores e monitores. Em constrangida entrevista ao Seleção Sportv, o prefeito da cidade admitiu que não receberá mais jogos porque o ideal “é evitar a circulação de pessoas”. Mas cedeu à tentadora oferta.

O vídeo tornado público do presidente da CBF, em reunião com dirigentes de clubes, é também emblemático. O tom enfático com que usa expressões como “vou mandar no futebol”, “vou determinar que vai haver competição”, é o retrato fiel de dirigentes que se julgam superpoderosos, imunes às regras. O futebol é insensível à tragédia das ruas, mas também aos seus próprios atores, submetidos a longas viagens que multiplicam surtos em clubes. É curioso o silêncio dos atletas, com raras exceções.

O futebol está jogando uma cartada alta e arriscada. Pode estar salvando contratos comerciais ao manter os campeonatos a todo custo. Mas pode estar perdendo o respeito e, pior, o sentimento de afeto de muita gente. Há famílias demais sofrendo no Brasil. Ser insensível a isso pode cobrar, no futuro, um preço altíssimo. E, neste caso, quem tanto pensou em números, irá perceber que a conta não vai fechar.

Fonte ge